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    • João Branquinho

      Mensagem para Visitantes   15-04-2017

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josegmoreira

Sobre linhagens, peixes selvagens e as designações F1 e F2

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Boas,

Tenho constatado que muitos aquariófilos (e até alguns importadores...) se referem incorrectamente a peixes selvagens como sendo F0. Por isso, permitam-me aqui clarificar um detalhe: se queremos utilizar a nomenclatura correctamente, não existe a classificação F0. Os peixes de aquário ou são WC (sigla de "Wild Caught", que significa capturados no seu habitat natural) ou TR (sigla de "Tank Raised", que significa criados em tanques, em cativeiro). Ora só os peixes TR podem ser F1, F2 e por aí em diante (ou seja, "filhos de"...), apesar do facto de depois da quarta geração a árvore genealógica já não fazer muita diferença... Já a qualidade da linhagem e o grau de parentesco, esses sim, fazem muita diferença, pois qualquer criador minimamente experiente sabe bem que há riscos de os defeitos serem transmitidos geneticamente e que os malefícios das consanguinidades podem resultar em criações inteiras de peixes defeituosos...

Isto porque o "F" vem da palavra latina "filialis", o que significa algo como "filho de" ("fīlius" = "filho" and "fīlia" = "filha"). Portanto, algo como "Filialis Zero" é coisa que não existe. Na árvore genealógica, o "zero" são os pais (no caso dos nossos peixes, o casal de exemplares WC...) Um peixe F1 é um peixe TR que é filho de dois peixes WC e que é portanto a primeira geração de crias desse casal. Os F2 são filhos de um casal em que ambos os pais são F1 (portanto são a segunda geração obtida a partir de peixes WC...) e por aí em diante... Há quem fale até de F1.5, quando um dos pais é WC e o outro é F1...

Lembrei-me de publicar este "post" porque muitas pessoas que me contactam para saber mais sobre os peixes que crio e que às vezes ponho à venda me perguntam se são "F's" (éfes qualquer coisa...) Não, não são e por uma boa razão. Regra geral, não gosto de fazer criações com peixes selvagens e não os escolho para reprodutores. É uma escolha pessoal. Está muito na moda falar-se de peixes selvagens (penso que alguns importadores até se utilizam disso para inflacionar os preços... Porém, também isto é uma opinião pessoal, sublinhe-se...) mas convém ter-se em conta o seguinte: antes de tudo, só porque um peixe é selvagem, não significa que seja perfeito. Está provado que um criador que trabalhe com peixes selvagens pode oferecer peixes TR (sejam eles F1, F2 , ou mesmo sem "F"...) tão bons ou mesmo melhores (mais resistentes, mais saudáveis e até mais bonitos) que os selvagens.

Desde logo porque (a não ser que o peixe venha de uma fonte absolutamente fidedigna, sem intermediários...) nunca se sabe quantos anos tem um peixe selvagem, o local exacto onde foi capturado, etc. Quem nos garante que essa informação é absolutamente correcta? No Malawi e no Amazonas, só para dar dois exemplos, há montes de peixes que são criados em redes colocadas no seu habitat selvagem, sendo que na sua maioria são exportados como sendo "Wild Caught". Porém, quando entram nos circuitos comerciais tudo muda, perde-se o controlo e já foram identificados inúmeros casos de falsificações de documentos. Mas há mais riscos. Veja-se a foto em baixo, retirada do site do Projeto Piaba, por exemplo. Quais são as probabilidades de estarem ali peixes irmãos? Como é fácil de imaginar, eles não testam o ADN de cada peixe que vai para exportação...  

3.jpg

Por outro lado, há peixes selvagens que nunca recuperam do trauma (nunca se alimentam como deve ser, apanham doenças frequentemente, etc) e duram poucos anos. Eu tenho um óscar selvagem (com ocelos na barbatana dorsal, uma espécie que o Dr Axelrod até tentou classificar como diferente do Astronotus ocelatus) com cerca de 3 anos que só me dá problemas sempre que o tento acasalar. Intraespecificamente é muito mais agressivo que a maioria dos óscares, requer muito mais território do que os outros, etc. A realidade é que há muito menos problemas com peixes criados em cativeiro: não são tão esquisitos, são menos tímidos, estão perfeitamente adaptados ao ambiente em que foram criados e sobretudo comem qualquer coisa. Ora, como hoje em dia há muitos alimentos no mercado que fornecem todas as vitaminas para termos peixes saudáveis (e até ajudam a realçar as cores), o risco de comprar exemplares problemáticos é menor quando se compram peixes criados em tanques.

Volto a salientar que muito do que aqui escrevi é apenas reflexo de opiniões pessoais. Como isto é um fórum, é suposto ser um espaço aberto, vocacionado para fomentar debates. Mas espero ter conseguido ajudar a clarificar o assunto.

Cumprimentos a todos.

Post-Scriptum: Como não vi no Aquariofilia.net nenhuma referência ao falecimento do Dr Herbert Axelrod, no dia 15 de Maio de 2017, aproveito para partilhar o link do obituário publicado pela Practical Fishkeeping com o resto do pessoal (a leitura vale a pena):

http://www.practicalfishkeeping.co.uk/news/fishkeeping-news/articles/2017/5/30/obituary-dr-herbert-r-axelrod

Editado por josegmoreira
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Boas,

Dois amigos aquariófilos por quem tenho grande consideração pessoal e cujas opiniões muito respeito chamaram-me a atenção para alguns detalhes do meu "post" anterior que merecem explicações um pouco mais precisas, em nome do rigor. Assim sendo, aqui vão elas: 

A primeira tem a ver com a clarificação da nomenclatura da genética, pois nas experiências de Mendel ele utilizava a sigla P (do latim "parentes" ou "parentum") para designar os pais nas suas experiências de criação. Ou seja, não devemos falar de F0 (tal como eu tentei explicar antes), mas sim de P, para designarmos os progenitores de uma determinada árvore genealógica. Pelos vistos, eu não tinha sido muito claro. Para os membros que queiram perceber esta questão com mais detalhe, aqui está um link com uma explicação clara e concisa sobre as primeiras experiências de Mendel:

https://www.ck12.org/book/CK-12-Biology-Concepts/section/3.2/

A segunda é que o P pode aplicar-se também a casais de peixes "Tank Raised" e não apenas a casais de "Wild Caught", ao contrário do que eu tinha afirmado. Tomemos como ponto de partida o caso dos híbridos (como os flowerhorn e os ciclídeos papagaio não-verdadeiros, só para apontar dois exemplos). Os pais destas notoespécies (isto é, espécies resultantes de cruzamentos entre duas espécies naturais) são P na árvore genealógica. São os "parentes", que dão origem aos "filialis". Porque o P tem apenas a ver com o casal reprodutor que deu início à linhagem. Ora os híbridos não são nunca "Wild Caught", são sempre "Tank Raised"... E as suas gerações já serão F1 e por aí em diante. "Mea culpa". A explicação deste aspecto tinha-me escapado no "post" anterior, talvez porque eu não goste nem um bocadinho de espécies híbridas... (só que gostos são gostos, enquanto o rigor é uma coisa completamente diferente...) 

Além disso, também ao contrário do que eu afirmei no "post" anterior, os meus amigos não concordam que a partir da quarta geração a árvore genealógica já não faça muita diferença. De facto, se estivermos a pensar em criadores em larga escala, que têm de ter particular atenção à linhagem dos seus exemplares reprodutores, têm toda a razão. Num programa de criação em larga escala (como sucede nas "fish farms" de Singapura ou da Malásia), têm obrigatoriamente de manter um registo dos F3, F4, F5 e por aí em diante para minimizarem as consaguinidades.

Um exemplo concreto que me foi apontado foi o de uma grande empresa francesa que cria peixes tropicais para exportação (que além da sua estação de criação no sul de França, também tem uma "fish farm" enorme no Senegal), que exporta os seus peixes com indicações de linhagem que vão pelo menos até F6 (como já pude comprovar, pois já tive peixes provenientes de lá), algo que indica um nível de controle muito apertado e uma supervisão muito eficiente nas respectivas linhagens.

Pronto. É tudo. Penso que assim ficam corrigidas as "gralhas" científicas involuntárias que cometi.

Cumprimentos a todos.

Editado por josegmoreira
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Board startup date: March 16, 2003 00:00:00