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[Artigo] sobre regulação osmótica dos peixes


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9 respostas a este tópico

#1 Jose Miguel Gomes

Jose Miguel Gomes
  • Membro
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    • :
  • Localização:Barcelos

Publicado 24 Março 2006 - 04:41

Água e regulação osmótica

Já alguma vez te perguntaste como é que há peixes que apenas sobrevivem em água doce, peixes que apenas sobrevivem em água salgada e peixes que suportam ambos os ambientes? Já te perguntaste se os peixes bebem ou não água? Que tipo de urina produzem? Fiz este artigo para tentar responder a estas e mais algumas questões.

Vamos pensar num peixe como sendo uma solução aquosa com uma membrana a separar o seu meio interno do externo (a água). O peixe tem interesse em manter a sua homeostasia (uma concentração de água e solutos ideal para o organismo). Para isso o animal tem de ter a capacidade de manter o seu volume e concentração de solutos dentro de determinados limites.
O problema é que o animal possui uma concentração interna diferente da do meio externo. Para combater este problema os peixes (bem como outros animais) diminuíram a sua permeabilidade e criaram gradientes de concentrações entre os fluidos corporais e o meio externo. Mesmo diminuindo a permeabilidade, ocorre sempre alguma fuga, então, o animal tem que encontrar um mecanismo que lhe permita contrabalançar essa fuga.

Num peixe teleósteo de água salgada, o seu conteúdo interno é hiposmótico (com menor concentração) relativamente ao meio externo, que é hiperosmótico (com maior concentração). Assim sendo existe o problema de o peixe perder água para o meio externo (a água tende a fluir para o local de maior concentração numa tentativa de igualar concentrações). O local de maior permeabilidade à água são as brânquias e para compensar a perda de água pelas brânquias, o peixe de água salgada, bebe água. Depois o problema é que essa água ingerida também contém uma alta concentração de sais e são absorvidos no tubo digestivo juntamente com a água. A concentração de sais no corpo aumenta, e aqui o problema é como eliminar o sal em excesso. Numa situação ideal o peixe deveria excretar os sais em grande concentração (mais concentrados que a água salgada). O rim dos teleósteos não faz esta função, não é capaz de produzir urina mais concentrada que o meio externo.
Então, outro órgão terá de fazer esta função. Isto é assegurado pelas brânquias que têm função dupla: participam na regulação osmótica e nas trocas gasosas. Esta secreção de sais (principalmente sódio e cloro) que ocorre na brânquia utiliza um mecanismo de transporte activo, pois decorre do local de menor concentração para o de maior concentração. No entanto, o rim é utilizado para eliminar iões divalentes, magnésio e sulfato e produz uma urina concentrada e em pequenas quantidades.
O transporte de iões no epitélio das brânquias é levado a cabo por células especiais, as células de cloro.
Uma espécie de Killifish (Fundulus heteroclitus), que facilmente se adapta quer a ambientes de água salgada como de água doce, foi utilizado para estudar mudanças na permeabilidade ao sódio e ao cloro que tem lugar quando ocorre uma adaptação a várias concentrações. A permeabilidade diminui em poucos minutos quando o peixe é transferido para água doce, mas o aumento de permeabilidade quando volta para água salgada demora várias horas.
Em resumo, a água é perdida osmóticamente através da membrana da brânquia e pela urina. Para compensar este facto, o peixe ingere água (juntamente com sais).

Esquemas que explicam as trocas osmóticas e iónicas em água salgada:

Imagem colocada

Imagem colocada

Num peixe teleósteo de água doce, a concentração osmótica do sangue é bastante superior que a água doce circundante.
Aqui, o maior problema é a água que entra por osmose. As brânquias são muito importantes nesta entrada de água, pois elas possuem uma grande superfície e são muito permeáveis; a pele não é tão importante neste processo. O peixe vai ter então um excesso de água que entra pelas brânquias, e é por este facto que os peixes de água doce não bebem água. A água em excesso é excretada na urina, que é muito diluída e muito abundante. Os solutos que se perdem na urina devem ser substituídos. As brânquias são ligeiramente permeáveis aos iões, e como tal, esta perda deve ser compensada com captação iónica.
Alguns solutos são ingeridos com a dieta, mas a maior parte entra no organismo por transporte activo nas brânquias.
Isto demonstrou-se em experiências em que colocaram um peixe numa câmara dividida por uma membrana de borracha, em que estudaram separadamente a cabeça e o corpo do animal. A captação activa de iões ocorreu apenas na câmara frontal (onde se encontrava a cabeça). Isto permite concluir que a pele não tem um papel importante, se é que tem algum, na absorção activa.

Esquemas que explicam as trocas osmóticas e iónicas em água doce:

Imagem colocada

Imagem colocada

Este artigo trata apenas de peixes teleósteos. Não explica osmoregulação em crustáceos, lampreias, tubarões e raias e outros grupos.

Jose Miguel Gomes.
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#2 Jose Ferraz

Jose Ferraz
  • Membro
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  • Interesses:Aquariofilia, fotografia, bonsais, caminhadas

Publicado 22 Maio 2006 - 11:02

Excelente artigo técnico.
Por curiosidade minha fizeste pesquisa ou tens formação na àrea?
Cumprimentos,
José Carlos Ferraz
  • 0

#3 Jose Miguel Gomes

Jose Miguel Gomes
  • Membro
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    • :
  • Localização:Barcelos

Publicado 25 Maio 2006 - 11:27

Obrigado JOSE, finalmente algum feedback :)

Estou no 3º ano de Ciências do Meio Aquático e neste ano temos duas cadeiras de Fisiologia dos animais aquáticos. Nem tudo me ficou muito bem na memória, mas esta foi uma das partes que melhor entendi e com o que sabia, e a ajuda do livro de Fisiologia fiz o artigo.

Queria fazer mais, mas nem sempre tenho disposição e tempo.

Obrigado,

Jose Miguel Gomes.
  • 0

#4 ccdsantos

ccdsantos
  • Membro
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  • Localização:Oeiras

Publicado 26 Maio 2006 - 10:35

ora aqui está um bom artigo ...
venham mais...
  • 0

#5 Esgalha

Esgalha
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Publicado 14 Junho 2006 - 01:24

então e agora ( e achoq ue e uma pergunta que tem a ver ), qual a diferença entre um peixe que vive em água doce em PH baixo, e outro que vive em PH alto, em termos de trocas de fluidos e sais? que problemas podemos provocar a um peixe se nao o mantivermos no ph a que está habituado? é possivel manter uma peixe a longo prazo num PH que não é o dele?
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#6 Jose Miguel Gomes

Jose Miguel Gomes
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Publicado 14 Julho 2006 - 12:54

então e agora ( e achoq ue e uma pergunta que tem a ver ), qual a diferença entre um peixe que vive em água doce em PH baixo, e outro que vive em PH alto, em termos de trocas de fluidos e sais? que problemas podemos provocar a um peixe se não (palavra corrigida) o mantivermos no ph a que está habituado? é possivel manter uma peixe a longo prazo num PH que não é o dele?


Bem, vou tentar responder a isso sem consultar a cábula :wink:

Em termos de trocas osmóticas e de sais a questão não se coloca em relação ao pH mas sim à concentração de sais do meio. A regulação osmótica e iónica tem a ver com isso. Obviamente que um salmão que desce um rio vai encontrar um pH diferente na água do mar, mas a adaptação do salmão (chama-se smoltificação) não vai ser em função do pH mas sim em função da concentração do meio que o rodeia.

A tua pergunta centra-se em questões de pH que não são o assunto deste artigo.

De forma geral, um peixe mantido num pH que não é o seu poderá ter problemas de desenvolvimento e crescimento.

Mais problemática é a situação em que a água não está correctamente tamponada e em que ocorrem situações de alcalose e acidose. Neste caso o peixe denota sintomas parecidos com o síndrome de insuficiência respiratória caracterizado por modificações comportamentais como movimentos bruscos, saltos fora da água com boca e opérculos bastante abertos, etc. Podem ocorrer também necroses ao nível do epitélio braquial.

Espero ter esclarecido.

Abraço,
  • 0

#7 Miguel Figueiredo

Miguel Figueiredo
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Publicado 18 Novembro 2006 - 01:26

Face ao exposto a minha questão é:

No caso dos peixes de água doce, até que ponto adicionar sal à água, não irá reduzir o esforço da regulação osmótica sobre o organismo do peixe e permitr uma mais facil adaptação a situações de stress, motivadas pelo transporte ou por doença?

Haverá estudos e experiencias realizadas nesta área?


Miguel
  • 0

#8 Luís Fortunato

Luís Fortunato
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Publicado 18 Novembro 2006 - 01:38

Olá.

No caso dos peixes de água doce, até que ponto adicionar sal à água, não irá reduzir o esforço da regulação osmótica sobre o organismo do peixe e permitr uma mais facil adaptação a situações de stress, motivadas pelo transporte ou por doença?

Porquê reduzir o esforço e não aumentar?

Olha o caso dos seres humanos a beberem água do mar... desidrata.
Utilizando uns números muito falsos, imagina: Por cada litro de água do mar que bebas precisas de deitar fora 3 litros para expelires o sal em demasia que foi ingerido (suor, por exemplo).

Se o peixe está adaptado a um ambiente com baixa salinidade, ao aumentares a salinidade do meio, o peixe fará um maior esforço para manter a salinidade adaptada... o sal creio ser bom para matar muitos bicharocos na água, pois acontece-lhes exactamente isto... dificuldades em manter equilíbrios salinos dentro e fora das membranas e kaput...

Mas isso o Jose Miguel Gomes que confirme ou desminta.
É a ideia que eu tenho.

É que não se esqueçam, por mais "destilada" que seja a água, vai ter sempre sais dissolvidos. O Sódio é tão móvel, por exemplo, que se bi-destilarem a água e a colocarem num copo de vidro, passadas umas horas hão-de ter pelo menos 5 ppm em Na+... :)

Cumprimentos
Luís Fortunato
  • 0

#9 Miguel Figueiredo

Miguel Figueiredo
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Publicado 18 Novembro 2006 - 02:07

Tenho ouvido ambas as versões, estou curioso em saber sobre estudos e experiencias que possam existir.

Normalmente em aquacultura estes assuntos costumam ser "a doer" e a tendencia geral é para o uso de sal - dá por exemplo uma vista de olhos a http://www.ca.uky.ed...ressCatfish.htm

A minha experiencia indica-me que a adição de sal é excelente na adaptação dos peixes recém-chegados mas posso estar simplesmente a ser sugestionado (e também dependerá do tipo de especies com que se lida, claro). Daí que a utilidade em conhecer que estudos sérios existem e a que conclusões chegaram.


Miguel
  • 0

#10 Luís Fortunato

Luís Fortunato
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Publicado 18 Novembro 2006 - 02:20

Olá Miguel.

Mas eu não digo que não se deva deitar sal para a água...

Depende sempre das espécies, e obviamente da quantidade de sal.

Eu só contra-argumentei a tua frase:

No caso dos peixes de água doce, até que ponto adicionar sal à água, não irá reduzir o esforço da regulação osmótica sobre o organismo do peixe e permitr uma mais facil adaptação a situações de stress, motivadas pelo transporte ou por doença?

Ou seja... eu não acredito que o peixe se sinta mais relaxado no aspecto de regulação osmótica...

Agora, e isso sim, acredito que por o peixe ficar stressado e obviamente mais propenso a doenças, que se deva/possa adicionar sal à água dos peixes para evitar que os bicharocos infectem o peixe facilmente.

Percebes?

As Corydoras, por exemplo, são peixes muito sensíveis ao sal na água. Lá está, o seu "corpo" deve ser mais permeável aos iões sódio e cloreto ou liberte água facilmente, o que faz que se colocares o peixe num ambiente mais salino, a água do interior do peixe saia mais facilmente, aumentando a concentração dos iões sódio e cloreto no interior do peixe, desrregulando o funcionamento bioquímico do peixe.

Cumprimentos
Luís Fortunato
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